SOBRE OS 529 MIL ZEROS NA REDAÇÃO DO ENEM:

Culpar alunos ou culpar professores ou culpar o governo ou culpar a tecnologia… Que tal olharmos a produção da cultura à nossa volta? Da publicidade televisiva aos programas imbecilizantes de todos os tipos. Ninguém tem A CULPA mas todos somos RESPONSÁVEIS! Qual responsabilidade cabe a cada um? Vamos reler Hannah Arendt? “Ser Professor é assumir a responsabilidade pelo cuidado do mundo. É dizer às novas gerações ‘o mundo é assim’. E quem não estiver disposto a assumir essa responsabilidade não deve ter nem crianças nem jovens sob sua responsabilidade.”
Até parece que só na escola aprendemos, até parece que a sociedade em que vivemos, nesse momento histórico, valoriza o conhecimento, a arte, a cultura, os estudos. Até parece que a televisão – medíocre, imbecil, degradada e violenta- não educa também. Resta saber para que.
Até parece que a imprensa informa, investiga e aprofunda os temas em debate.
Boa parte de nossos professores e alunos não sabem NADA sobre ditadura nem sobre a privataria. Não sabem nada da história e da rica e diversa cultura do povo brasileiro.
Quem nos sonega o direito à informação de massa?
Por favor: vamos olhar em volta de nós, vamos olhar em perspectiva da macropolítica, para além dos limites da tela da globo, e do nosso cotidiano.
Há uma responsabilidade que é coletiva. E as respostas para esse desafio só podem ser construídas coletivamente.
Basta de apontar dedos para o outro.
QUAL É A MINHA PARTE NISSO? Sem culpa, apenas com responsabilidade de adultos que educamos as novas gerações. Buscando as responsabilidades e as saídas coletivas. Porque de repente há uma síndrome do adolescentismo: ninguém responde por nada, tudo é “culpa do outro”, e nos tornamos todos/as vítimas. Então: quem responde por isso. com certeza não há um só lado nessa história. e TODOS devem ser chamados a responder, a buscar respostas. COLETVAMENTE, ORGANIZADAMENTE.

  • Facebook
  • Twitter
Publicado em Geral | Deixar um comentário

QUANTO VALE SABER? QUANTO VALE APRENDER? DE QUE “VALOR” ESTAMOS FALANDO, AFINAL?

QUINHENTAS E VINTE E NOVE MIL CANDIDATOS TIRARAM NOTA ZERO NO ENEM. ALGUMAS REFLEXÕES PARA O DEBATE.

Venho observando, e me doendo, por uma progressiva atitude de desprezo pelo estudo sério, comprometido com a própria formação integral, um certo grau de autodidatismo necessário em qualquer um/a que queira de fato aprender… E um certo desprezo pelo conhecimento manifestado por pessoas de diferentes profissões, mas me preocupa sobretudo o que tenho presenciado na Educação. Certos valores e comportamentos em que as pessoasse perguntam antes “o que eu vou ganhar com isso (o estudo)?”, do ponto de vista material, como se o que é importante na vida, como o aprendizado na vida, tivesse que necessariamente se reverter em ganhos materiais. E então há um desprezo por quem sabe, por quem estuda, por quem lê, por quem gosta de saber… E há uma apologia, velada às vezes, outras explícita, por quem “se dá bem” mesmo sem saber… E não estou falando aqui de escolarização: estou falando de aprendizado, de leituras, do gosto de aprender, da belezaque há em quem sabe, em quem está sempre aprendendo… Esse desprezo pela leitura e o seu correspondente, a banalização de uma literatura de auto-ajuda que mais esvazia que preenche, torna as pessoas sem conteúdo, sem argumentos, com explicações mágicas para problemas reais e sempre em busca de soluções mágicas para os problemas e desafios concretos que o viver nos apresenta. Viver é resolver problemas também! E essa responsabilidade é terceirizada para os carnês da prosperidade, para as meias ungidas, para as “doações para o deus de Malafaia”, para os “patrocínios do RR Soares”… Esse vazio também tem esse resultado: meio milhão de pessoas que não tem nada a dizer de consistente sobre os problemas da vida cotidiana, sobre o mundo no qual vivemos cada dia da nossa existência sobre a Terra…

Você pode conferir a matéria do UOL Educação aqui: http://educacao.uol.com.br/noticias/2015/01/13/529-mil-candidatos-tiraram-zero-na-redacao-do-enem-2014.htm

 

  • Facebook
  • Twitter
Publicado em Geral | Deixar um comentário

DITADURA NUNCA MAIS: O RETROCESSO NA EDUCAÇÃO

O RETROCESSO NA EDUCAÇÃO

COMO A DITADURA INTERFERIU NA EDUCAÇÃO BRASILEIRA / OS PREJUÍZOS

Os acordos MEC/USAID e as reformas educacionais

“O acordo MEC/USAID incluiu uma série de convênios realizados a partir de 1964, durante o regime militar brasileiro, entre o Ministério da Educação (MEC) e a United States Agency for International Development (USAID). Os convênios tinham como objetivo uma profunda reforma no ensino brasileiro e a implantação do modelo norte americano nas universidades brasileiras.”
http://ditaduranuncamais.cnte.org.br/o-retrocesso-na-educacao/

  • Facebook
  • Twitter
Publicado em Geral | Deixar um comentário

GREVE DA APP: CONSIDERAÇÕES SOBRE VÁRIOS QUESTIONAMENTOS SOLIDÁRIOS DE COMPANHEIROS

Foto: 15:Foto: 4:

Foto: 11:

Foto: 12:

Veja mais imagens aqui: https://www.facebook.com/appsindicato/photos_stream

EXPLICANDO A VÁRIOS QUE, SOLIDARIAMENTE, ME PEDIRAM EXPLICAÇÕES:
Nós temos exigido o cumprimento da Lei do Piso, que é hoje a Lei que regula nossa politica salarial. Combinado com isso temos feito a luta pela equiparação salarial, que acho que vc sabe do que se trata. No ano passado, ambas essas politicas nos garantiram cinco por cento de ganho real, no ano retrasado 14%!!!. O que acontece: no ano passado, em novembro, tivemos a última parcela da eqiparação, 3,94%. Este ano, o reajuste do valor do PSPN ficou em 8,32%. Isso nos colocou a 4,2% do valor do PISO. Ou seja, nós, do estado do Paraná, estávamos a 4,2% do valor do Piso. E o governo vinha dizendo que era isso que faltava pra cumprir a Lei do Piso (o que não é mentira), mas nós não aceitamos esse argumento, exigindo ganhos acima do Piso que é um valor mínimo de referência. Chegamos a data-base incluidos a educação. Daí não passaríamos e judicialmente o governo poderia conseguir pagar somente os 4,2%. Chegamos a data-base para todos, o que significa que tivemos sim o cumprimento do índice do Piso mais 2,3%. Pois, não é mentira, tivemos 3,94 da equiparação há seis meses. Ou seja: se não tivéssemos recebido essa parcela lá atrás, não haveria como o governo escapar de nos pagar os 8,32, pelo menos; Não é o que queríamos, mas tudo que o governo queria era que lhe déssemos motivos pra judicializar a negociação, porque daí estaria jogando no seu campo de poder. Tudo é muito difícil e muitas decisões devem ser tomadas o tempo todo. Numa pauta extensa, fragmentada em vários segmentos da categoria: professores efetivos, professores PSS, funcionparios efetivos, funcionários PSS, professores educação especial, saúde, professores que querem dobra de padrão, professores e funcionários de EJA… Saímos com respostas e encaminhaemtnos positivos pra todas essas pautas! Por isso, tranquilamente, nos sentimos muito vitoriosos. A luta nunca é fácil, mas garantimos direitos que vão pra nossa carreira e pro nosso contracheque de forma perene. A categoria não teve prejuizo, só conquistas. Vimos o que o governo fez com a brava gente da Saúde na semana passada e deliberamos garantir o que conquistamos, seguir na luta sem expor a categoria a punições e sanções e a botar pra perder tudo que tínhamos acumulado até aqui. Com muita tranquilidade. E vamos acompanhar e fazer cumprir cada item agora. Negociar a efetivação da pauta em vez de nos desgastarmos em negociar abrandamento de punições. É muito trabalho o que nos espera a partir da proxima semana. Só pensamos em arrancar nosvos direitos e em garantir direitos pra categoria. Todo o resto é secundário, #VamosJuntos!”

  • Facebook
  • Twitter
Publicado em Geral | Deixar um comentário

ANOTAÇÕES SOBRE UMA GREVE GRANDE, FORTE, ORGANIZADA E VITORIOSA! #ASSIMÉQUESEVÊ #AFORÇADAAPP!

1 – Quem organizou, mobilizou, construiu passo a passo essa greve, foi a APP-Sindicato. Não foi geração espontânea, foi trabalho, trabalho, trabalho. E mesmo com uma pauta extensa e segmentada, obtivemos resultados concretos em todos os itens. Só a má fé ou a desinformação não admite isso. Grandeza de espírito e de entendimento do que seja a História e a dureza das lutas dos/as trabalhadores/as da educação para a conquista de cada um dos direitos que temos hoje. Começamos pelo mais básico: o de receber salário todo mês e não o do ano ao final dele. Há muito por fazer, muito por conquistar. Mas se não sabemos de onde viemos, como traçar o caminho das lutas futuras?


  • Facebook
  • Twitter
Publicado em Geral | Deixar um comentário

PARA ESSES QUARENTA DIAS

 

 

Recebi da minha amiga Cleusa Gomes, lá de Foz do Iguaçu. Uma linda mensagem do Candomblé em diálogo com esses quarenta dias simbólicos do cristianismo:

 

“Faça uma proposta a si mesmo(a), que nestes quarenta dias:

Exu não lhe permita acomodar.

Ogum lhe faça vencer as batalhas interiores.

Xangô lhe traga ponderação e misericórdia.

Oxossi lhe ajude a encontrar o alvo do que deve ser eliminado dentro de você.

Omulu cure as feridas que forem abertas durante esta jornada.

Que a sabedoria de Pai Oxalá faça você renascer na páscoa um ser humano muito melhor.”

Pai Marcos.

  • Facebook
  • Twitter
Publicado em Geral | Deixar um comentário

ELES VOTARAM CONTRA OS 10% DOS ROYALTIES DO PETRÓLEO PARA A EDUCAÇÃO PÚBLICA. NÃO VOTE NELES, ELES NÃO DEFENDEM A ESCOLA PÚBLICA! Apoiaram o golpe, e agora vem, com a maiora cara de pau, pedir seu voto. O mesmo que eles jogaram na lata do lixo em 2016…

  • Facebook
  • Twitter
Publicado em Geral | 5 comentários

INDICES DE DESENVOLVIMENTO HUMANO NO BRASIL NOS ULTIMOS VINTE ANOS: O ÊXITO DAS POLÍTICAS DE JUSTIÇA SOCIAL DO PT.

  • Facebook
  • Twitter
Publicado em Geral | 4 comentários

La desmemoria/4

Al llegar al barrio de Heymarket, pido a mis amigos que me muestren el lugar donde fueron ahorcados, en 1886, aquellos obreros que el mundo entero saluda cada primero de mayo.
-Ha de ser por aquí -me dicen. Pero nadie sabe.
Ninguna estatua se ha erigido en memoria de los mártires de Chicago en la ciudad de Chicago. Ni estatua, ni monolito, ni placa de bronce, ni nada.

El primero de mayo es el único día verdaderamente universal de la humanidad entera, el único día donde coinciden todas las historias y todas las geografías, todas las lenguas y las religiones y las culturas del mundo; pero en los Estados Unidos, el primero de mayo es un día cualquiera. Ese día, la gente trabaja normalmente, y nadie, o casi nadie, recuerda que los derechos de la clase obrera no han brotado de la oreja de una cabra, ni de la mano de Dios o del amo.

Tras la inútil exploración de Heymarket, mis amigos me llevan a conocer la mejor librería de la ciudad. Y allí, por pura curiosidad, por pura casualidad, descubro un viejo cartel que está como esperándome, metido entre muchos otros carteles de cine y música rock.

El cartel reproduce un proverbio del Africa: “Hasta que los leones tengan sus propios historiadores, las historias de cacería seguirán glorificando al cazador“.

Eduardo Galeano – El libro de los abrazos.

  • Facebook
  • Twitter
Publicado em Geral | Deixar um comentário

Pela ampliação da maioridade MORAL.

Mais um artigo da Eliane Brum. Ainda há inteligência e lucidez no Jornalismo brasileiro. (Blog da Janes)
“Eu acredito na indignação. É dela e do espanto que vêm a vontade de construir um mundo que faça mais sentido, um em que se possa viver sem matar ou morrer. Por isso, diante de um assassinato consumado em São Paulo por um adolescente a três dias de completar 18 anos, minha proposta é de nos indignarmos bastante. Não para aumentar o rigor da lei para adolescentes, mas para aumentar nosso rigor ao exigir que a lei seja cumprida pelos governantes que querem aumentar o rigor da lei. Se eu acreditasse por um segundo que aumentar os anos de internação ou reduzir a maioridade penal diminuiria a violência, estaria fazendo campanha neste momento. Mas a realidade mostra que a violência alcança essa proporção porque o Estado falha – e a sociedade se indigna pouco. Ou só se indigna aos espasmos, quando um crime acontece. Se vivemos com essa violência é porque convivemos com pouco espanto e ainda menos indignação com a violência sistemática e cotidiana cometida contra crianças e adolescentes, no descumprimento da Constituição em seus princípios mais básicos. Se tivessem voz, os adolescentes que queremos encarcerar com ainda mais rigor e por mais tempo exigiriam – de nós, como sociedade, e daqueles que nos governam pelo voto – maioridade moral.

Se é de crime que se trata, vamos falar de crime. E para isso vale a pena citar um documento da Fundação Abrinq bastante completo, que reúne os estudos mais recentes sobre o tema. Mais de 8.600 crianças e adolescentes foram assassinados no Brasil em 2010, segundo o Mapa da Violência. Vou repetir: mais de 8.600. Esse número coloca o Brasil na quarta posição entre os 99 países com as maiores taxas de homicídio de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos. Em 2012, mais de 120 mil crianças e adolescentes foram vítimas de maus tratos e agressões segundo o relatório dos atendimentos no Disque 100. Deste total de casos, 68% sofreram negligência, 49,20% violência psicológica, 46,70% violência física, 29,20% violência sexual e 8,60% exploração do trabalho infantil. Menos de 3% dos suspeitos de terem cometido violência contra crianças e adolescentes tinham entre 12 e 18 anos incompletos, conforme levantamento feito entre janeiro e agosto de 2011. Quem comete violência contra crianças e adolescentes são os adultos.

Será que o assassinato de mais de 8.600 crianças e adolescentes e os maus tratos de mais de 120 mil não valem a nossa indignação?

Diante desse massacre persistente e cotidiano, talvez se pudesse esperar um alto índice de violência por parte de crianças e adolescentes. E a sensação da maioria da população, talvez os mesmos que clamam por redução da maioridade penal, é que há muitos adolescentes assassinos entre nós. É como se aquele que matou Victor Hugo Deppman na noite de 9 de abril fosse legião. Não é. Do total de adolescentes em conflito com a lei em 2011 no Brasil, 8,4% cometeram homicídios. A maioria dos delitos é roubo, seguido por tráfico. Quase metade do total de adolescentes infratores realizaram o primeiro ato infracional entre os 15 e os 17 anos, conforme uma pesquisa do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). E, adivinhe: a maioria abandonou a escola (ou foi abandonado por ela) aos 14 anos, entre a quinta e a sexta séries. E quase 90% não completou o ensino fundamental.

Será que não há algo para pensar aí, uma relação explícita? Não são a escola – como lugar concreto e simbólico – e a educação – como garantia de acesso ao conhecimento, a um desejo que vá além do consumo e também a formas não violentas de se relacionar com o outro – os principais espaços de dignidade, desenvolvimento e inclusão na infância e na adolescência?

É demagogia fazer relação entre educação e violência, como querem alguns? Mas será que é aí que está a demagogia? É sério mesmo que a maioria da população de São Paulo acredita que tenha mais efeito reduzir a maioridade penal em vez de pressionar o Estado – em todos os níveis – a cumprir com sua obrigação constitucional de garantir educação de qualidade?

Não encontro argumentos que me convençam de que a redução da maioridade penal vá reduzir a violência. E encontro muitos argumentos que me convencem de que a violência está relacionada ao que acontece com a escola no Brasil. A começar pelo recado que se dá a crianças e adolescentes quando os professores são pagos com um salário indigno.

Aqueles que escolhem (e eles são cada vez menos) uma das profissões mais importantes e estratégicas para o país se tornam, de imediato, desvalorizados ensinando (ou não ensinando) outros desvalorizados. Será que essa violência – brutal de várias maneiras – não tem nenhuma relação com a outra que tanto nos indigna?

Teríamos mais esperança de mudança real se, diante de um crime bárbaro, praticado por um adolescente a três dias de completar 18 anos, o povo fosse às ruas exigir que crianças e jovens sejam educados – em vez de bradar que sejam enjaulados mais cedo ou com mais rigor nas prisões que tão bem conhecemos. Vale a pena pensar, e com bastante atenção: a quem isso serve?

É uma mentira dizer que os adolescentes não são responsabilizados pelos atos que cometem. O tão atacado Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê a responsabilização, sim. Inclusive com privação de liberdade, algo tremendo nessa faixa etária. Mas, de novo, o Estado não cumpre a lei. Numa pesquisa realizada pelo CNJ, apenas em 5% de quase 15 mil processos de adolescentes infratores havia informações sobre o Plano Individual de Atendimento (PIA), que permitiria que a medida socioeducativa funcionasse como possibilidade de mudança e desenvolvimento.

Alguém pensa em se indignar contra isso?

Se você se alinha àqueles que querem que os adolescentes sejam encarcerados, torturados e sexualmente violados para pagar pelos seus crimes, pode se alegrar. É o que acontece na prática numa parcela significativa das instituições que deveriam dar exemplo de cumprimento da lei e oferecer as condições para que esses adolescentes mudassem o curso da sua história. Segundo a pesquisa do CNJ já citada, em 34 instituições brasileiras, pelo menos um adolescente foi abusado sexualmente nos últimos 12 meses, em 19 há registros de mortes de jovens sob a tutela do Estado, e 28% dos entrevistados disseram ter sofrido agressões físicas dos funcionários. Sem contar que, em 11 estados, as instituições operam acima da sua capacidade.

Será que a perpetuação da violência juvenil decorre da falta de rigor da lei ou do fato de que parte das instituições de adolescentes funciona na prática como um campo de concentração? Antes de tentar mudar a lei, não seria mais racional cumpri-la?

É o que o bom senso parece apontar. Mas é previsível que, num ano pré-eleitoral e com 93% dos paulistanos a favor da redução da maioridade penal, segundo pesquisa do Datafolha, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) prefira enviar ao Congresso um projeto para alterar o ECA, passando o período máximo de internação dos atuais 3 anos para 8 anos em casos de crimes hediondos. Uma medida tida como enérgica e rápida, num momento em que o Estado de São Paulo sofre com o que o próprio vice-governador, Afif Domingos (PSD), definiu como “epidemia de insegurança” – situação que não tem colaborado para aumentar a popularidade do atual governo.

Vale a pena registrar ainda que o número de crimes contra a pessoa cometidos por adolescentes diminuiu – e não aumentou, como alguns querem fazer parecer. Segundo dados da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, entre 2002 e 2011 os casos de homicídio apresentaram uma redução de 14,9% para 8,4%; os de latrocínio (roubo seguido de morte), de 5,5% para 1,9%; e os de estupro, de 3,3% para 1%. Vale a pena também dar a dimensão real do problema: da população total dos adolescentes brasileiros, apenas 0,09% cumprem medidas socioeducativas como infratores. Vou repetir: 0,09%. E a maioria deles cometeram crimes contra o patrimônio.

É claro que, se alguém acredita que os crimes cometidos pelos adolescentes não têm nenhuma relação com as condições concretas em que vivem esses adolescentes, assim como nenhuma relação com as condições concretas em que cumprem as medidas socioeducativas, faz sentido acreditar que se trata apenas de “vocação para o mal”. Entre os muitos problemas desse raciocínio que parece afetar o senso comum está o fato de que a maioria dos adolescentes infratores é formada por pretos, pardos e pobres. (São também os que mais morrem e sofrem todo o tipo de violência no Brasil.) Essa espécie de “marca da maldade” teria então cor e estrato social? Nesse caso, em vez de melhorar a educação e as condições concretas de vida, a única medida preventiva possível para quem defende tal crença seria enjaular ao nascer – ou nem deixar nascer. Alguém se lembra de ter visto esse tipo de tese em algum momento histórico? Percebe para onde isso leva?

Há que ter muito cuidado com o que se deseja – e com o que se defende. Assim como muito cuidado em não permitir que manipulem nossa indignação e nossa aspiração por um mundo em que se possa viver sem matar ou morrer.

Se eu estivesse no lugar dos pais de Victor Hugo Deppman, talvez, neste momento de dor impossível, eu defendesse o aumento do número de anos de internação, assim como a redução da maioridade penal. Não há como alcançar a dor de perder um filho – e de perdê-lo com tal brutalidade. Diante de um crime bárbaro, qualquer crime bárbaro e não apenas o que motivou o atual debate, os parentes da vítima podem até desejar vingança. É uma prerrogativa do indivíduo, daqueles que sofrem o martírio e estão sob impacto dele. Mas o Estado não tem essa prerrogativa.

O indivíduo pode desejar vingança em seu íntimo, o Estado não pode ser vingativo em seus atos. Do Estado se espera que leve adiante o processo civilizatório, as conquistas de direitos humanos tão duramente conquistadas. E, como sociedade, nossa maturidade se mostra pelo conteúdo que damos à nossa indignação. É nas horas críticas que mostramos se estamos ou não à altura da nossa época – e de nossas melhores aspirações.

De minha parte, sempre me surpreendi não com a violência cometida por adolescentes – mas que não seja maior do que é, dado o nível de violência em que vive uma parcela da juventude brasileira, a parcela que morre bem mais do que mata. E só testemunhei a sociedade brasileira olhar de verdade – olhar para ver essa realidade – uma única vez: quando o Brasil assistiu, em horário nobre do domingo, ao documentário Falcão – Meninos do tráfico. É um bom momento para revê-lo.

Sabe por que a violência praticada por adolescentes não é maior do que é? Por causa de seus pais – e especialmente de suas mães. A maioria delas trabalha dura e honestamente, muitas como empregadas domésticas, cuidando da casa e dos filhos das outras. Contra tudo e contra todos, numa luta solitária e sem apoio, elas se viram do avesso para garantir um futuro para seus filhos. O extraordinário é que, apesar de sua enorme solidão, sem amparo e com falta de tudo, a maioria consegue. Àquelas que fracassam cabe a dor que não tem nome, a mesma dor impossível que vive a mãe de Victor Hugo Deppman: enterrar um filho.

Em 2006, espantada com uma geração de brasileiros, a maioria negros e pobres, cuja expectativa de vida era 20 anos, andei pelo país atrás dessas mulheres. Elas respiravam, mas não sei se estavam vivas. Lembro especialmente uma, a lavadeira Enilda, de Fortaleza. Quando o primeiro filho foi assassinado pela polícia, ela estava com as prestações do caixão atrasada. O pai do menino tinha ganhado um dinheiro fazendo pão e, em meio à enormidade da sua dor, eles correram para regularizar o pagamento. Quando conversei com ela, Enilda pagava as prestações do caixão do segundo filho. O garoto ainda estava vivo, mas em absoluta impotência, essa mãe tinha certeza de que o filho morreria em breve. Diante da minha perplexidade, Enilda me explicou que se precavia porque testemunhava muitas mães nas redondezas pedindo esmola para enterrar os filhos – e ela não queria essa humilhação. Enilda dizia: “Meu filho vai morrer honestamente”.

Nunca alcancei essa dor, que era não apenas de enterrar um filho, mas também de comprar caixão para filho vivo, o único ato de potência de uma mulher que perdera tudo. Enilda vivia numa situação de precariedade quase absoluta, tentando trancar nas peças apertadas da casa os filhos que restavam, num calor infernal, para que não fossem às ruas e se viciassem em crack. É claro que perdia todas as suas batalhas. A certeza de ser honesta era, para ela, toda a sanidade possível.

O que podemos dizer a mulheres como Enilda? Que agora podem ficar tranquilas porque o país voltou a discutir a redução da maioridade penal e o aumento do período de internação? Que é por falta de cadeia logo cedo que seus filhos vendiam e consumiam drogas, roubavam e foram assassinados? Que, ao saber que podem ir presos aos 16 em vez dos 18 anos, seus filhos ainda vivos aceitarão as péssimas condições de vida e levarão uma existência em que não trafiquem, roubem nem sejam mortos? Que é disso que se trata? Quando o primeiro filho de Enilda foi executado, ele tinha 20 anos – e já tinha passado por instituições para adolescentes e pela prisão.

Antes de tornar-se algoz, a maioria das crianças e adolescentes que infringiram a lei foi vítima. E ninguém responde por isso.

Não há educação sem responsabilização. É por compreender isso que o ECA prevê medidas socioeducativas. Mas, quando a solução apresentada é aumentar o rigor da lei – e/ou reduzir a maioridade penal –, pretende-se dar a impressão à sociedade que os adolescentes não são responsabilizados ao cometer um crime. Essa, me parece, é a falsa questão, que só empurra o problema para a frente. A questão, de fato, é que nem o Estado, nem a sociedade, se responsabilizam o suficiente pela nova geração de brasileiros.

Educa-se também pelo exemplo. Neste caso, governantes e parlamentares poderiam demonstrar que têm maioridade moral cumprindo e fazendo cumprir a lei cujo rigor (alguns) querem aumentar.”

(Eliane Brum, Revista Época._(Por enquanto)

Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/eliane-brum/noticia/2013/04/pela-ampliacao-da-maioridade-moral.html

  • Facebook
  • Twitter
Publicado em Geral | Deixar um comentário