DIA DOS PAIS. BREVE CONFISSÃO DE UMA FILHA MULHER: PATRIARCADO, MACHISMO E MISOGINIA.

Então… eu nunca falei do meu pai aqui…porque é exposição pública, catarse, luz do sol…E também tenho uma resistência a esses dias marcados pela agenda comercial que acabam por nos conformar culturalmente mas… aqui estou, envolvida no clima de “dia dos pais”. Amanheci com vontade de chorar. E necessidade de entender, porque racionalizar também é um jeito de superar dialeticamente.

Do meu pai tive sim carinho quando criança, depois os medos. Acho que amanheci me entendendo melhor. Me conhecendo um pouco mais além… Sim, do meu pai tenho memórias de momentos bons, de carinho, de convívio. Do meu pai tive desde cedo o aprendizado da música, da rotina, do valor do trabalho (meu pai nunca se levantava tarde). Sua rotina era levantar sempre cedo, ligar o radinho de pilha, cevar o chimarrão, tudo bem cedo. Tinha pilhas de discos de tango, rotação 78 para quem lembra. Isso quando passamos a morar numa casa com luz elétrica, eu devia ter por volta de dez anos…

Do meu pai lembro ensinando minha irmã mais velha a dançar tango, bolero, valsa, para que ela ensinasse aos meus seis irmãos… Lembro de como trabalhava duro e de como tinha sonhos nunca realizados. Até que não sonhou mais. Lembro de como era honesto, acho que nem passava pela sua cabeça a possibilidade de não sê-lo.Trabalhou duro a vida toda sem descanso nem remédio. E isso não lhe trouxe riqueza. Os parentes ricos, e moralistas/meritocráticos, diziam que ele era pobre porque gostava da boemia, dos bares, das mulheres, da festa. Não, ele era pobre porque vivemos no capitalismo mesmo. Compreendi isso muito tempo depois. A consciência política me fez entender isso criticamente muitos e muitos anos depois. Foi sempre explorado, mesmo quando trabalhava por conta própria.

O gosto pela dança, pela música, pela festa, pela música caipira, pelo tango…herdei do meu pai, “seu” Luis. “Corrientes..348…” soou nos meus ouvidos a vida toda. Quando fui a Buenos Aires, adivinha qual o primeiro lugar que quis conhecer? Claro, Calle Corrientes. Soa nos meus ouvidos até hoje. Pai de nove filhos, sempre tentou conciliar o gosto pela boemia com o casamento e aquele monte de filhos. Missão inglória.

E foi em meio a esse conflito permanente que nasci eu, a sexta filha. A segunda do sexo feminino após uma série de meninos. Dizem que fui festejada porque a família queria muito outra menina que então só minha irmã mais velha. Festejada “pero no mucho”, porque era mais uma boca pra comer em meio a pobreza. Minha mãe sempre fazendo os milagres da multiplicação dos pães: plantando – com eventual ajuda do meu pai – hortas fartas, um porquinho no chiqueiro aqui, um galinheiro ali, e as espetaculares fornadas de pão feito em casa em forno de tijolo no quintal.

Lembro também do dia de matar porco que eu corria pra longe porque não suportava ouvir os gritos do bicho. Mas, cruel, adorava o torresmo e todos os derivados do animal, porque meu pai e minha mãe sabiam aproveitar tudo do bicho. Até as tripas. Aos pequenos cabia lavar e relavar as tripas para a linguiça, para o “churiço”… E lembro que meu pai fazia feijoadas memoráveis, era “a feijoada do Luiz”… e tinha gosto de, quando a cada tanto fazia a famosa feijoada, gostava de encher um caldeirão enorme, e os parentes que não vinham comer em nossa casa, vinham buscar um pouquinho pra levar pra casa.

Aprendi do meu pai o gosto pela festa, e apesar de ter momentos de extremo egoísmo, contraditoriamente, também era de generosidades… E porque estou aqui lembrando disso hoje? Não sei direito, vou racionalizar depois. Ou já estou fazendo isso aqui. então, se até aqui só falei coisas boas e boas lembranças, porque a lembrança do meu pai é uma lembrança que dói?

Porque do meu pai aprendi também o machismo. Eu não aprendi sobre machismo na rua, no mundo, fora de casa. Aprendi em casa. E aprendi também com meu pai. E com ele aprenderam meus irmãos homens. Todos eles. E daí sobrevieram parte dos conflitos que vivenciamos. E os distanciamentos. E não era pouca coisa. Ele falava coisas inacreditáveis como se fossem banais. Coisas de que tipo? Pois vou dizer, para expurgar, vou dizer: “Mulher, até pra mijar tem que se abaixar”. As pessoas riam, e acho que eu também ri muitas vezes disso enquanto não tinha muito entendimento. Mas isso naturalizou. E desnaturalizar é conflito na certa.

Foi meu pai com sua forma de ver as mulheres que me ensinou a não confiar nunca nos homens. E minha mãe me ensinou a tratar de ser independente e “nunca depender de homem pra sobreviver”. “Seu” Luiz dizia que não havia a menor possibilidade de amizade entre mulheres e homens porque os homens sempre tinham interesse sexual dissimulado ou não e que portanto ficássemos cientes de que essa aproximação era sempre interessada. Não lhe ocorria que as filhas pudessem também ter interesse sexual, porque, é claro, que moça direita não era dada a essas coisas…

Eu também não conheci o assédio sexual contra mim quando criança na rua ou com estranhos. Foi tudo em família, entre parentes. Com os homens da nossa ampla e animada família, compreendida aqui como o conjunto de tios, tias, primos e primas com quem convivemos a vida toda. Então, minha gente, amanheci com vontade de chorar porque os processos de consciência são muitas vezes tardios…E advém daí muito da minha relação conflitivo, desconfiada, armada até os dentes, em todas as relações amorosas.

Todas conflitivas, todas “ranger de dentes e arrastar de correntes” porque sempre estava em alerta esperando o momento da mentira, da traição, do bote, do desrespeito… E muitos homens não se fazem de rogado e são isso mesmo porque aprenderam com seu pai, e o pai do seu pai, e o pai do pai do sei pai pelos séculos amém que ser homem é isso.

Meu pai era infeliz no casamento, mas se manteve ali porque achava que era sua obrigação, ou porque era cômodo. Não podia ter feito coisa pior pra nós, pra mim. Fosse ser feliz e viver plenamente sua vida e nos teria dado outra lição, outro exemplo de coragem, ao mostrar-nos dessa forma que não tinha medo de ser feliz. E que ser feliz implica às vezes em correr riscos, romper com o estabelecido e se permitir outros arranjos familiares e amorosos… Mas meu pai nunca fez e nunca faria isso. Muito menos minha mãe. E assim viveram até o fim.

Além desse aprendizado de que as mulheres valiam menos, que era cotidiano e rotineiro, também lembro do medo. Quando sóbrio meu pai era um, quando bebia, era outro. E às vezes se tornava agressivo. E minha memória também é isso: o medo. O medo. O medo. Quantas vezes levantamos da cama na madrugada e corremos nos esconder no meio do mato. Às vezes ele nem estava atrás da gente, mas não importava: o medo me fazia correr cada vez pra mais longe. Uma noite me enrosquei na cerca da arame farpado e carrego uma pequena cicatriz até hoje. A física é pequena. Mas no espírito, na memória, na alma, ainda me assombra. Ainda ronda esse medo.

O medo foi o primeiro bicho-papão que me apareceu quando fui obrigada a fazer terapia. Tratar meu espírito atormentado para não morrer. Eu amava meu pai, mas era difícil. Muito difícil. E desenvolvi uma gastrite nervosa que me levou a desmaiar de dor em pleno local de trabalho aos 23 anos. Aí tive que me tratar. E agradeço até hoje ter encontrado ESSA terapeuta nesse momento. Outra não teria dado conta. Eu era puro medo me jogando no abismo para enfrentar o medo. E ali, na primeira sessão o que vejo? Medo eraiva. E culpa. Raiva e medo. E culpa.

E foram cinco anos de trabalho duro pra me revirar por dentro e reencontrar a menina que gostava de cantar, de rir muito, de dançar, de namorar sem culpa, de reaprender a me amar, a me enxergar em meio a névoa da autodestruição punitiva e da menos-valia. Mab, querida terapeuta de múltiplas técnicas você me salvou do medo, da raiva e da culpa.

E então… eu passei a vida querendo que meu pai me amasse de um jeito que ele não sabia, nem podia… Até pouco antes de morrer ele tomou atitudes evidenciando sua preferência pelos filhos homens. E eu me surpreendi com isso. Fiquei magoada, de novo, ao descobrir isso no dia da sua morte, durante seu velório. E alguém me perguntou: “mas você não sabia que seu pai era assim?”, ao que lembro ter respondido: “no fundo eu esperava até o fim que ele desse um sinal de que eu estava enganada”. Não estava. E se corroborar isso me doeu, também me libertou e me tornei mais livre ali, na hora da sua morte.Dali saí para viver uma nova vida e um novo amor sem culpa e sem medo. Ainda com o coração um pouco despedaçado por saber que até o fim da sua vida ele tentou tirar das filhas mulheres para dar pros filhos homens que ele considerava mais merecedores.

Ele não conseguia amar as filhas mulheres como amava os filhos homens – a quem ele também tratava com rispidez e brutalidade muitas vezes, não se enganem. Mas os preferia às filhas mulheres. E essa era a dor. A melhor e mais brilhante das filhas mulheres era menos e menor que o mais medíocre dos filhos homens, porque éramos mulheres. Um defeito incontornável, irrecuperável. E nem ele podia fazer nada a esse respeito: era homem do seu tempo, do seu meio, produto da cultura patriarcal, machista-misógina. E não se iludam: a maioria dos pais dessa geração e da atual pensam isso e sentem assim sobre suas filhas. Porque o patriarcado modela e conforma os sentimentos também.

E era mais difícil ainda pro meu pai, que eu resolvesse confrontá-lo e afirmar minha humanidade, meu direito a ser livre e a viver sem culpa. Portanto, minha luta feminista não começa no movimento feminista, começou em casa, afirmando minha humanidade e minha integridade como ser humano, menina ainda, discordando do meu pai e dos meus irmãos que insistiam em colocar as mulheres nas categorias “santa” ou “puta”, “pra comer” ou “pra casar”. Refutei tudo isso a vida toda. E eduquei minha filha pra ser livre, inteira, íntegra, honesta consigo mesma e autônoma.

E consegui interromper em mim essa história familiar. Minha filha constrói pra ela uma outra história, livre dessas assombrações que dizem que lugar de mulher é na cozinha, ou no tanque ou no reduto privado e escravizado do lar. Minha mãe era chamada de “santa” porque trabalhava quinze horas por dia, lavando, passando, cozinhando e aguentando os maltratos calada, ou quase, pra manter um casamento que só se sustentou porque ela estava determinada a permanecer nele e porque meu pai não tinha a menor intenção de desfazer.

Ele gostava da gente, acredito nisso. Mas sobre como olhava pras filhas mulheres me marcaram pra sempre. Essa cicatriz é que de vez em quando dói. É essa dor sempre presente a lembrar o que o patriarcado pensa de nós. E o lugar que nos delegou na História: nenhum. O vazio, a negação, a invisibilidade. A luta feminista nos ajuda a compreender, e compreender é o primeiro passo. Mas é aprendizado da vida toda.

Não há culpas individuais em tudo isso: é o modelo de sociedade e de cultura em que vivemos. E é também motivação e impulso pra fazer a luta e mudar o mundo nesse aspecto também. Por novas relações sociais, pela superação da cultura que desumaniza as mulheres e legitima a cultura do assédio sexual, do feminicídio, das mutilações e do estupro. E relega às mulheres os piores salários e a serem as primeiras vítimas nas crises econômicas.

Esse é o mundo que temos, e saber é sempre o primeiro passo pra transformá-lo. Essa é uma pequena parte da minha história. Que é parte da história de muitas mulheres que nos cercam. Se leram até aqui, recebam um grande abraço feminista, algumas lágrimas, porque chorar não paga imposto.
E todos sabem que, depois do desabafo, a mulherada ri e ama muito melhor!
‪#‎NossaLutaÉtodoDia‬
‪#‎AtéQueTodasSejamosLivres‬
‪#‎SomosTodasMargaridas‬

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