PALAVRAS INDIGNADAS

São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal…”

(Carlos Drummond de Andrade)

A insanidade é tanta que eu havia dito pra mim mesma que não iria dialogar com ela. Nem com eles, os insanos. Os doentes de manipulação e de mentira. Porque mentir e distorcer e inventar falácias como método de negar às mulheres sua plena humanidade, mas também aos negros e negras e obviamente, no mesmo diapasão, aos homossexuais, e a todos e todas que escapam da régua inflexível e da “cama de Procusto1” da heteronormatividade.

O mito grego nos remete a uma reflexão antiga na humanidade, sobre a intolerância. E é de intolerância, de misoginia, de poder e controle sobre o outro que tratamos aqui. A mentira, já disse um famoso nazifascista, se repetida mil vezes acaba tomando ares de verdade. Mas nunca se tornará verdade, respondemos nós.

A mentira da qual tratamos aqui, é a falácia repetida pela intolerância do fundamentalismo religioso que tem o nome fantasia de “ideologia de gênero”. Tivemos que ouvir padres e pastores e sua claque cega de desinformação, dizer numa audiência pública sobre o Plano Estadual de Educação, que pretendemos a ensinar meninos e meninas “a como se tornarem homossexuais”. Como se isso fosse possível!

Já não bastou com a Igreja ter queimado cem mil mulheres na fogueira sob acusações infundadas, ou fundadas em interesses espúrios de poder político e de riqueza, como sempre? Não bastou com o que fez com Galileu Galileu? Com Giordano Bruno? Quinhentos anos depois a Igreja admitiu que estava errada e pediu desculpas. Mas… Quinhentos anos depois! Vão levar quinhentos anos de novo a se desculpar pela falácia de agora? Não aprendem? Ou aprenderam e repetem pelas mesmas razões de sempre?

Fizeram uma interpretação politicamente desonesta e intelectualmente indigente das propostas de uma educação emancipatória e humanizadora que eduque para a igualdade de direitos entre meninos e meninas, para a igualdade de direitos entre todas as raças e etnias, e para o respeito a diversidade sexual existente na sociedade e obviamente, na escola. É disso que tratamos.

O que pretendemos é educar as pessoas para que não discriminem aqueles que na sociedade que tem a etnia branca, o sexo masculino, heterossexual, cristão, como o padrão de referência de humanidade. Educar para compreender qua humanidade somos todos e todas nós com nossa variedade de cores e identidades. Educar para que nós, mulheres, possamos sim ser reconhecidas como seres humanos completos e não como um anexo subalterno do patriarcado.

Essa falácia de “ideologia de gênero” é um eufemismo perverso, criado espertamente para ocultar a velha ideologia do patriarcado que naturaliza o machismo, a misoginia e a homofobia.

Educar para a igualdade étnico-racial significa reconhecer a humanidade plena de todos os homens e mulheres do mundo: negros, indígenas, asiáticos, estrangeiros.

O contrário disso, que é o que está por trás da falácia interpretativa sobre uma tal “ideologia de gênero”, é educar para o racismo como ato legítimo, assim como o machismo, a misoginia e a homofobia. Então as mulheres poderão continuar sendo vítimas de violência machista produzida pelo patriarcado, os negros poderão continuar sendo vítimas do racismo, assim como os indígenas poderão seguir sendo exterminados e queimados eventualmente, e os homossexuais poderão continuar sendo espancados pelas ruas. Isso é o que estão dizendo, em outras palavras, os que se escondem atrás da “defesa da família” para atrasar a implantação de uma educação libertadora, humanizadora, emancipatória.

Defendemos, em décadas de debates e estudos, uma educação em que nos reconheçamos como uma só humanidade, numa diversidade que só nos enriquece e nos torna mais humanos. Defendemos uma educação que reconheça e respeite a alteridade, para supera uma educação repressora que nos embrutece e desumaniza. Defendemos uma educação pela igualdade contra uma concepção que aparta e hierarquiza os seres humanos e com isso legitima toda a barbárie cometida contra mulheres, índios, negros e negras, homossexuais, não-cristãos, pobres, estrangeiros, refugiados…

Quem não são, afinal, os “diferentes” demonizados por essa ideologia que se nega como tal? Não são diferentes, não fazem parte da “diversidade” quem é homem, branco, heteronormativo, diz-se cristão, é rico ou é identificado com a ideologia do dinheiro.

Ora, minha gente, vamos falar sério: esses valores e práticas estão na base da ideologia do nazifascismo! Por isso ressurgem das trevas e se somam na histeria contra uma suposta “ideologia de gênero”, a TFP, o instituto Plínio Salgado, e um monte de organizações inclusive com financiamentos estrangeiros mal explicados, a intervir na efetivação do Plano Estadual de Educação.

Gente que nunca apareceu para defender o direito do povo a um ensino de qualidade e a uma escola pública decente. Gente que andava nas sombras conspirando contra a democracia, contra as liberdades e os direitos civis. Gente que vemos em todos os lugares fazendo a mesma política de discriminação, apartação social e violência, seja aqui, nos Estados Unidos, na França, na Espanha, na Alemanha, etc.

O mesmo fascismo disfarçado de “defesa da família”.Qual família? Aquela do pai que manteve a filha presa durante décadas num porão insalubre e a estuprou durante toda a vida fazendo vários filhos com ela?

Ou seria família aquele pai que abusou sexualmente da filha de oito anos e a convenceu de que ela era culpada pelo abuso sofrido?

Ou seria família essas em que 35% das mulheres são a chefe de família pois são elas, sozinhas, que garantem o sustento dos filhos pois o pai sumiu no mundo?

Ou das famílias em que mesmo existindo ali um marido ou companheiro, é a mulher que garante a subsistência da família?

Registra-se que 70% dos casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes, sendo mais de 90% de meninas, acontecem dentro da família, por pais, tios, avôs, padrastos, irmãos, primos etc. É DESSA família por acaso que estão falando os nobres deputados? Muitos deles muitas vezes denunciados por envolvimento em exploração sexual de crianças?

Qual é o modelo hipócrita de família que está na cabeça desses políticos e dessas políticas? A quem servem estes parlamentares? A depender deles e delas, teremos um mundo cada vez mais intolerante, mais bruto, histérico e ignorante.

Se muitos dos que seguravam cartazes invocando a tal falácia da “ideologia de gênero” tal como os oportunistas a interpretaram, eram inocentes úteis a serviço de negócios lucrativos, não o eram os que dependem dessa despolitização de formar um eleitorado crédulo e obediente a voz de mando dos coronéis da mídia doutrinária religiosa, que operam para ampliar mercados e a sua lógica mercantil. Assim formam bancadas parlamentares que permitirão criar leis que beneficiem seus negócios.

E para manter e ampliar tais bancadas dependem de unir esse eleitorado sem projeto político de transformação do mundo, em torno de falsas polêmicas, inventadas e alimentadas apenas para reforçar essas bancadas e as mesmas poderem ampliar seus negócios num moto-contínuo perverso e brutalmente imbecilizante e intolerante.

Que uma criança de três anos, no maternal da escola,já tenha percepção do racismo, não importa nem preocupa a essa escória da política. Que índios sejam mortos e possam ser queimados vivos para diversão de jovens da alta burguesia que rezam pela cartilha dos mesmos falsos moralistas do comércio da fé, isso também não preocupa nem interessas a esses/as políticos/as. Que mulheres sejam humilhadas e/ou mortas todos os dias pela violência do machismo e da misoginia tampouco lhes fazem perder o sono.

Que o Brasil seja o país do mundo em que mais se matam homossexuais, também não preocupa o sono nem o exercício do mandato desses parlamentares inúteis, dispensáveis, inócuos, que envergonham e amesquinham a Política. São pequenos fazedores da pequena política. Tanta é a ignorância que caíram no ridículo de, fé-cega-faca-amolada, obedecerem estupidamente a toda referência a “gênero” que votaram contra até a expressão “gêneros alimentícios” contido no Plano de Educação.

É com essa espécie de legisladores que nosso País se encontra nesse momento de encruzilhada histórica. É com essa manga de oportunistas que nos deparamos a cada dia no Congresso Nacional, na Assembleia Legislativa do Paraná, e nas Câmaras Municipais. Aqui, tivemos de forma cristalina a exibição da hipocrisia e do cinismo: deputados do camburão, os mais notórios, estavam lá, encharcados de falso moralismo a falar (?) em nome “da família”! Deve ser de outro conceito de família que estão falando: a família dos grandes e lucrativos negócios que fazem dentro dos parlamentos.

Pois são os mesmos que defendem a redução da maioridade penal, os mesmos que defendem o agro-veneno, defendem a legalização do trabalho escravo, defendem a entrega do patrimônio do povo brasileiro para empresas estrangeiras, defendem contra a presença de mais mulheres na política. Compõem em todos os níveis de governo, as bancadas da bala, da bíblia e do boi: BBB.

É essa face que querem esconder atrás dos discursos cínicos que fazem em nome de uma família abstrata e irreal, pois não movem um dedo para proteger de fato as mulheres, as crianças, os adolescentes, os jovens e os adultos vítimas da violência produzida pela intolerância e pelo preconceito, ambos filhos da ignorância manipulada. As “camas de Procusto” do oportunismo de negócios de poder político e de muito dinheiro.

Janeslei Aparecida Albuquerque

Professora de Língua Portuguesa e Literaturas

Especialista em Magistério do Ensino Básico

Mestre em Educação

(Mas se depender da maioria que compõe esse parlamento desonesto, essa formação vale menos que a opinião baseada na ignorância de parlamentares obscurantistas, obtusos e mercenários).

1O Mito (grego) de Procusto: Procusto (Procusto ou Procusta), que significa “o estirador”, foi o apelido dado a Damastes, personagem da mitologia grega que vivia perto da estrada de Eleusis. Era um ladrão que vivia de roubar quem passasse pela estrada que ligava Mégara a Atenas, só poderia cruzar seu caminho quem passasse por um terrível julgamento. Possuía uma cama de ferro de seu tamanho exato, nenhum centímetro a mais ou a menos, onde ele fazia sua vítima deitar-se, se a pessoa fosse maior que a cama amputava-lhe as pernas, se fosse menor era esticada até atingir o tamanho desejado. Esse horror só teve fim quando o herói Teseu fez a ele o mesmo que ele sempre fazia às suas vítimas, colocou-o na cama, mas um pouco para o lado, sobrando assim  a cabeça e os pés que foram amputados pelo herói. O mito de Procusto é uma alegoria da intolerância. Apesar de diversidade ser uma característica humana, o ser humano tem agido como Procusto, em grande parte acreditando estar sendo justo. Num dos episódios desse mito, Atena, a deusa da sabedoria, incomodada pelos gritos das vítimas resolveu tomar uma providência e foi ter com o bandido, mas ficou sem palavras quando este argumentou que estava fazendo justiça porque sua cama nada mais fazia do que acabar com as diferenças entre as pessoas. O silêncio de Atena foi interpretado como aprovação e só fez reforçar a crueldade do bandido. Quando Teseu procurou por Procusto, o ladrão pensando que seria uma visita amigável, tentou convencer o herói da legitimidade de suas ações. No entanto, Teseu responde que injusto é tentar igualar as pessoas que são diferentes por natureza, por isso cada uma tem o direito de ser como é.

 

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